A ARTE DO DESEJO

 


ele tinha olhos redondos pretos como a noite e brilhantes como a lua, havia esperança dentro — eu a removi com todo meu sentimento que plantei, reguei e cultivei do seu ser e alma. eu o venerei como um deus e esqueci de escrever para mim. meu erro foi ler mensagens antigas e rasgar minha pele ao ler minhas palavras bobas de jovem. hoje se soubesse não teria me entregado, mas fui entregue em seus braços — desfrutada com olhares e beijos, hoje sigo nova em folha, mas naquele dia você me despedaçou. assim escrevi em meu diário logo após algumas semanas de ver suas mãos escrever poesias a outra:

eu desejo voltar a te olhar no fundo dos seus olhos, ouvir sua voz que já me esqueci o tom e o sotaque, quero sentir a textura de seu cabelo, quero dizer o quanto esses olhos são melancólicos e me trazem desejo. a madrugada não é mais a mesma sem você, talvez sinta falta até daquele cheiro característico de suas roupas recém lavadas. tudo em você em da um completo arrepio e me faz desejar usar o batom vermelho que representa para mim o auge do desejo por ti, mas desde quando eu te vi mudou tanto. você não tem mais os mesmo olhos, nem cabelo e possivelmente nem cheiro. meus sentidos não existem mais pois eu os consumi em uma visão tão antiga sua. desejo o passado de ti, aquele no qual você era puro como uma flor recém brotada e pronta para ser polinizada. nada em você faz mais sentido e há de que aceitar que desejo apenas seu eu do passado. aqueles olhos melancólicos e fundos me faziam pensar em como seria o dia seguinte com eles em meu rosto. o que pensava de mim quando olhava pela janela, me esperando chegar para discutimos aquele livro que lemos juntos? em todos os parágrafos e pontos finais pensava o quão romântico era você ler o mesmo que eu e como lhe desejava, para sempre, era perfeito. meu passado é meu pressagio, não consigo escapar, pois essas palavras me perseguem. o que há com ela que não há em mim? quando acariciava meus ombros nus com tanto amor e paixão não sabia que algo assim irá se tornar realidade. rasguei as paginas do livro que me deu, falando que me amava. ateei fogo até se transformar em cinzas. suas palavras são como mentiras, farpas afiadas, olhos de fogo, seu passado, me frusta. quero lhe matar de amor, como esta mulher nunca faria você se sentir, queria morde-te na nunca para que nunca esqueça da dor que senti, quero que tire esses olhos melancólicos de minha vista, quero que nunca sinta mais amor na vida. limpe essas lagrimas, lave suas mãos e nuca, ame-a como nunca me amou e mostre o mesmo livro para todas as outras. ainda olho pela janela com saudade do seu passado, como se fosse uma vida passada, um efêmero momento da vida — no qual me entregar foi o maior erro. sempre terá uma nova mulher e uma velha que ainda olha para a janela lhe aguardando com o mesmo semblante de amor. guarde todas as poesias que fez para mim e mande para todas elas — para uma mais bonita e talentosa. seu café é péssimo pelas manhãs inclusive, não sabe faze-lo. sem gosto, aguado e sem açúcar — igual a ti. sei que isso lhe ofende por isso digo.


um júbilo por vez, todas que tiveram a ti na vida provaram um pouco do inferno e sabe que eu nem lhe amei com todas minhas entranhas. lembre quando eu lhe disse meu pequeno e bobo sonho? não, apenas eu lembro do seu. me ensinou a ver as estrelas e constelações e hoje quero que elas se explodam para o fim da espécie. meu diário sabe tudo sobre você e lhe odeia.



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