SOPA DE CARINHO
Confesso estar com saudade de meu casulo — meu quarto. Porém também confesso que não consigo escapar dessa casa, por ter passado tanto tempo aqui. Me apego a muitas memorias e acabo esquecendo oque posso ser amanhã. A sopa me traz um conforto inexplicável, por cada legume e principalmente o caldo quente me preencher sinto-me em casa novamente. Sei que tudo está diferente, meus sonhos, meus defeitos e principalmente minha essência — que na rotina acabo me perdendo mesmo assim. Gostaria de tê-la para sempre ao meu lado. O que fui ou deixei de ser me faz delirar durante a noite por não ter controle de minha vida. Amanhã posso tomar a sopa novamente para sentir-me preenchida por carinho de estar em casa — não sei se posso a chamar assim por enquanto. Tudo some com a presença de uma casa. Segura para chorar pelos cantos sem pensar muito sobre se será vista. Não preciso ser vista quando sofro, pois minha cura está em passar por isto. Sinto falta da garota que morava aqui antes de mim, ela tinha sonhos impossíveis, mas acreditava e hoje não sei muito bem dela. Pode ter se tornado em uma mulher que leva tudo com a barriga e e nem se quer sonha a noite. Todas as noites essa garota podia ou não tomar a sopa de carinho e dormir tranquila, mas ela não sabia disto.
Ainda continuo com sonhos. A sopa ainda me conforta. Sempre irei ter onde retornar se me sentir perdida. O maior desafio é me reencontrar todas as vezes que achar que não tenho nada disto. Ninguém nunca irá ver as noites que derrubei meu sangue para acordar no próximo dia. As escolhas me moldam para ver este lugar ainda como um lar e minha presença como refugio — como meu casulo. A metamorfoses de uma borboleta pode levar muito tempo, então ainda há esperanças para mim. Irei juntas meus trapos e levar esta vida com a mesma vontade da garota que morou aqui antes de mim.
"Eu amo a minha cruz, a que dolorosamente carrego. É o mínimo que posso fazer da minha vida: aceitar consideravelmente o sacrifício da noite."
— 'Água viva', Clarice Lispector

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